Quando alguém fuma dentro de casa, no carro ou em outro ambiente fechado, o problema não termina quando a fumaça desaparece.
Parte das substâncias presentes no cigarro pode permanecer depositada em paredes, móveis, cortinas, tapetes, roupas e outras superfícies. Esses resíduos também podem ficar na pele e nos cabelos de quem esteve exposto.
Essa forma de exposição é conhecida como fumo de terceira mão e merece atenção, principalmente em ambientes frequentados por crianças e outras pessoas mais vulneráveis.
O que é fumo de terceira mão?
Para entender o conceito, primeiro é importante diferenciar três formas de exposição ao cigarro.
O fumo ativo acontece quando a própria pessoa fuma.
O fumo passivo ocorre quando alguém que não fuma respira a fumaça produzida pelo cigarro ou liberada pelo fumante.
Já o fumo de terceira mão corresponde aos resíduos químicos do tabaco que permanecem nas superfícies, na poeira e em objetos depois que a fumaça já não está mais visível.
Isso significa que uma pessoa pode entrar em contato com substâncias provenientes do cigarro mesmo sem estar próxima de alguém fumando naquele momento.
Onde os resíduos do cigarro podem permanecer?
As substâncias liberadas durante o uso do tabaco podem aderir a diferentes superfícies e materiais, como:
- paredes;
- sofás e poltronas;
- cortinas;
- tapetes e carpetes;
- roupas de cama;
- bancos e revestimentos de veículos;
- roupas;
- pele e cabelos;
- poeira presente no ambiente.
Alguns desses resíduos podem permanecer por períodos prolongados e voltar ao ar ou reagir com outras substâncias presentes no ambiente.
Por isso, abrir uma janela ou simplesmente esperar o cheiro do cigarro desaparecer não significa necessariamente que todos os resíduos tenham sido eliminados.
Como acontece a exposição ao fumo de terceira mão?
O contato pode ocorrer de diferentes formas.
Uma pessoa pode inalar partículas presentes na poeira ou no ar, tocar superfícies contaminadas ou ingerir resíduos de maneira indireta ao levar as mãos à boca.
Esse último ponto ajuda a explicar por que existe uma preocupação especial com bebês e crianças pequenas.
Elas passam mais tempo próximas ao chão, tocam objetos e superfícies com frequência e costumam levar as mãos à boca. Além disso, apresentam características fisiológicas próprias da infância que podem aumentar sua vulnerabilidade a determinados agentes ambientais.
Fumo de terceira mão pode causar câncer?
Essa é uma pergunta importante, mas exige cuidado na resposta.
O tabagismo e a exposição ao fumo passivo são fatores de risco bem estabelecidos para diferentes doenças, incluindo vários tipos de câncer.
No caso específico do fumo de terceira mão, pesquisas já demonstraram que os resíduos do tabaco podem conter substâncias tóxicas e potencialmente cancerígenas. Estudos experimentais também investigam possíveis danos celulares e ao DNA associados a essa exposição.
No entanto, as evidências disponíveis ainda não permitem determinar com a mesma precisão qual é o impacto do fumo de terceira mão sobre o risco de câncer em seres humanos ao longo da vida.
Isso não significa que a exposição deva ser ignorada. Pelo contrário, reduzir o contato com resíduos do tabaco é uma medida prudente de proteção à saúde.
Fumar na janela ou em outro cômodo resolve?
Fumar próximo a uma janela, ligar ventiladores ou escolher um cômodo separado pode diminuir parte da fumaça no ambiente, mas não impede completamente a deposição de resíduos.
Essas partículas podem aderir às roupas e ao corpo do fumante e ser transportadas para outros espaços.
Da mesma forma, fumar dentro do carro com os vidros abertos não torna aquele ambiente livre da exposição às substâncias provenientes do tabaco.
A maneira mais efetiva de evitar a contaminação de ambientes internos é não fumar dentro de casas, veículos e outros espaços fechados.
E o cigarro eletrônico?
Embora os cigarros eletrônicos funcionem de maneira diferente do cigarro convencional, seu aerossol também pode liberar nicotina e outras substâncias capazes de se depositar nas superfícies.
Por isso, utilizar cigarros eletrônicos em ambientes fechados também não deve ser considerado uma prática sem risco para as pessoas ao redor.
Como reduzir a exposição aos resíduos do cigarro?
A principal medida é manter ambientes internos completamente livres do tabaco.
Evitar fumar dentro de casa ou do carro ajuda a impedir que novos resíduos se acumulem. Em locais que foram expostos repetidamente à fumaça durante muito tempo, apenas a limpeza superficial pode não ser suficiente para remover todas as substâncias depositadas.
Dependendo do nível e do tempo de exposição, pode ser necessário realizar uma limpeza mais profunda de tecidos, móveis, sistemas de ventilação e outras superfícies.
Para quem fuma, interromper o tabagismo continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir os riscos à própria saúde e diminuir a exposição das pessoas próximas.
O cigarro afeta mais pessoas do que quem fuma
Quando falamos sobre os riscos do tabagismo, é importante olhar além do fumante.
A fumaça pode afetar quem está no mesmo ambiente, enquanto resíduos provenientes do tabaco podem permanecer mesmo depois que o cigarro foi apagado.
O conhecimento sobre o fumo de terceira mão reforça uma orientação importante: não existe uma forma de fumar dentro de ambientes compartilhados que elimine completamente a exposição das outras pessoas aos componentes do tabaco.
Manter casas, carros e outros ambientes internos livres do cigarro é uma medida de prevenção e proteção coletiva.
Na Onkológica, informação baseada em evidências também faz parte da prevenção do câncer e do cuidado com a saúde.
Estas informações têm caráter educativo e não substituem a avaliação individual realizada por um profissional de saúde.
Dra. Juliana Lorenzoni Althoff
Diretora Técnica Médica
CRM 12765 | RQE 6239